Arrasta-me para o inferno
09/11/2009

Drag Me to Hell, 2009 – Direção: Sam Raimi – Elenco:Alison Lohman,Justin Long,Adriana Barraza.
O melhor exemplo de que Raimi nasceu foi pra fazer podridão e não filmes de ação para adolescentes.
Drag me to hell não brinca com clichês, mas sacaneia todos existentes em filme de terror e de qualquer gênero. É desde já, o filme mais sacana do ano. Humilha qualquer diretor de terror contemporâneo e ainda o faz pedir penico. Faz uma critica tão perfeita aos novos filmes do gênero que lembra alguns filmes do Carpenter onde até hoje as pessoas não enxergam além da “diversão” que há no filme . Raimi vê aqui, e às vezes parece que são só pra isso, apenas para deixar seu protestos as grandes merdas que saem a cada semana nos cinemas e transformaram todo o imaginário de terror que mestres como Dario Argento construíram com tanto empenho. Raimi sabe que não é culpa dos jovens gostarem desses lixos, mas culpa de quem faz, uma ótima qualidade no diretor, que acaba por não ser preconceituoso e sim justo. Portanto, ao ver Drag me to hell prepare-s, ainda mais se você for um desses jovens, a ver um material que ridicularizará tudo que é tido como terror de hoje.
O cara não conta uma história, mas cria pretextos pra formara uma. Uma mulher comum, como qualquer outra, trabalha em um banco e sonha em subir de cargo como qualquer pessoa normal e comum deseja em seu trabalho. Essa é a maior ambição de sua vida. Tem um namorado rico e seu único impedimento na vida é um colega novo de trabalho que também luta pela mesma promoção que ela. Ela tem um gato e é vegetariana. Só isso que você precisa saber da protagonista. O resto não vai ajudar muito a descobrir sobre quem ela é. A não ser pelo fato de ela ser muito boa ou meiga se preferir com seus clientes e por isso, talvez, ainda não ter sido promovida.
Num belo e comum dia de trabalho, nossa protagonista se depara com uma velha nojenta e sem um olho te pedindo um prolongamento de seu empréstimo. A velha é muito nojenta mas parece ser uma boa pessoa e isso faz o coração da protagonista se abrir um pouco. Ela então decide verificar com seu chefe se pode dar o tal prolongamento e acaba recebendo a noticia de que ela tem que decidir, afinal é uma decisão ruim, e como o ultimato que ele tinha dado pra ela antes, o novato tinha chances de ser promovido porque não tinha medo de acatar decisões difíceis. A protagonista é “comida” pela ambição e esquece da velhinha bondosa e carente que lhe pedira o prolongamento, e acaba negando o pedido da senhora que chega a implorar para a moça que envergonhada com as pessoas envolta acaba derrubando a senhora que se revolta com isso e quase estrangula a moça do banco.
Pronto. Daí você pode se preparar para todo o tesão que você vai sentir ao ver as outras sequencias com que Raimi nos abençoa. Primeiramente temos uma abertura para o filme onde nos dá a idéia do que acontecerá de fato na história. O “espírito” aparece leva um moleque qualquer pro inferno e uma vidente revoltada quer vingança por não tê-lo vencido.
Voltando pro cerne da produção, depois que a moça nega o empréstimo pra velha o inferno começa para a pobre coitada da protagonista, apenas mais uma pessoa por ai. A velha amaldiçoa Christine (protagonista) e fode com tudo da vida da moça depois disso. Isso tudo mostrado na cena mais clássica do ano. Antologicamente filmada por Raimi que tem timing cômico e sacanagem de sobra pra demonstrá-los a nós.
Depois que a maldição é lançada, ou pra ser mais exato, do momento em que ela é lançada pra frente o filme nos banha com cenas e mais cenas antológicas e divertidas de se ver. Sem nunca perder seu objetivo: ser trash e fuder com o cinema de terror de hoje. Na cena da briga no carro, por exemplo, Raimi demonstra toda sua revolta por meio do lenço da senhora Ganush (a velha). Lentamente, depois de ter construído todo um clima em cima do estacionamento onde Christine está indo a caminho de seu carro, o lenço da senhora Ganush se movimenta e desaparece, por alguns segundos e logo depois reaparece em um enorme estrondo unido a música. O que tem de mais nisso? Nada. Mas se você observar bem 99% das pessoas que estão vendo ao filme já sabe que o lenço vai fazer um barulhão quando aparecer de novo. Aí está que merda é essa? Onde todas as pessoas sabem o que ocorrerá e ainda sim se assuntam, como? Nossos bons mestres do “novo terror” sabem o porquê. As pessoas já tem um imaginário clichê e sabem de todos os momentos que vão levar um susto, mas mesmo assim o levam porque, afinal, não há outra coisa pra ver. Escolher ver um terror hoje em dia é o mesmo que se obrigar a levar sustos. É uma espécie de autoflagelação mesmo. E apenas com um lenço feito podremente em CGI Raimi mostra o tanto que as platéias estão treinadas e não ri delas, mas acha triste.
Raimi também encharca sarcasmo ligado ao seu protesto sobre o capitalismo. E o melhor, todas as cenas ligadas ao capitalismo são engraçadas, não ridículas. Só pra citar uma, quando Christine decide tomar uma decisão ruim, ela olha pra mesa da “vice gerente” e uma música romantizada soa no fundo o que remete a todo um imaginário ambicioso do mundo de hoje. O filme é totalmente anticapitalista e cheio de criticas o tal sistema. Da primeira a última cena , nossos personagens se ligarão ao dinheiro e como isso mudará suas vidas. Aliás, é por causa de uma ambição capitalista que Christine “vai” para o inferno. Talvez isso seja uma questão mais ampla, ou apenas uma mensagem de estarmos sempre no inferno em meio a desgraças justamente por causa de nossas ambições e dinheiro em caixa.
Só preciso falar, que a trilha é a melhor do ano(até agora) e que tem um ar nostálgico, principalmente por lembrara as trilhas dos filmes de Burton e não se prender ao “real” terror. é sério, a trilha se prende ao diretor e fode com os clichês em igual dando sempre tons propositais ou sacanas para as cenas. Maravilhosa, quem tiver oportunidade ouça separadamente o score.
Não chega a ser um filme que atravessa barreiras, pois se prende apenas na proposta e larga qualquer possível pretensão pelo caminho. É apenas o que é, e tem um ritmo meio legal, mas correto, o que talvez atrapalhe.
Já ficou grande de mais o post e eu vou encerrá-lo logo pra vocês não ficarem com tédio. O filme é um “Vai se fuder” aos filmes medíocres que não conseguem nem sequer ser trashes e que fazem tanto eu como você ou Raimi ficarmos com enjôo e sermos preconceituosos com os pobres jovens que apenas foram domados por uma década inteira a pensar que terror são os filme que assistem, e que medo é o que o barulho da trilha faz.
3/5
Um dos filmes mais divertidos que vi este ano. =)